Um curso-carapuça

Se você não se reconhecer neste curso seus amigos vão. Como posso afirmar isto com segurança? A partir de um olhar de cientista natural. A observação diz ao cientista que existem tantos tipos de feijão. Como eles se classificam é tarefa da imaginação científica, sua existência não dá margem a discussão. Da mesma maneira existem tantos tipos de caráter reconhecidos pela comunidade psicanalítica, deles apenas o nome foi inventado o resto é fato.

A ideia de caráter aparece nos escritos de Freud, nas suas descrições de casos clínicos que correspondem a tipos de caráter: o caso Dora e a histeria, o caso do homem das ratazanas e obsessividade, o pequeno Hans e a fobia. Foi Wilhelm Reich, psicanalista da terceira geração dos alunos de Freud, que deu forma mais clara ao conceito, no livro Análise do caráter, conceito cuja referência é a observação.

O nome completo do conceito é caráter neurótico. Neurótico é alguém que apresenta sintomas que têm uma fórmula geral: a percepção de algo estranho, errado, sinistro, em coisas do mundo, cachorros, por exemplo, que é a fobia; já algo estranho no corpo é a histeria, sintomas que parecem físicos, mas são psíquicos; e algo estranho na mente constitui a neurose obsessiva, uma parte da mente sendo sentida como estranha.

Caráter neurótico é uma forma de organização da psique que tem a tendência a apresentar sintomas, mais precisamente uma relação emocional com a autoridade na qual a obediência permite a perda da integridade. A alternativa saudável, digamos assim, é a obediência que é um caminho para a realização, como o aluno que obedece ao professor para adquirir conhecimento. É a isto que estou chamando de forma de organização. Você, como eu, como qualquer pessoa tem uma ou várias destas organizações. Porque são estas e não outra eu não sei e não sei quem saiba – mas é muito estimulante como pergunta, definindo a fronteira científica.

Eu digo que a carapuça vai lhe servir mas não é para mortificar e sim mostrar uma dimensão da liberdade, a liberdade interior, que é igual à exterior no sentido de ser um poder fazer algo. Mas dela difere pela forma de perda e recuperação.

A liberdade se perde como solução para uma situação de sofrimento. Exemplo: Maria me abandona sempre e eu sofro, resolvo dizendo que não gosto de Maria, resolução inconsciente que modifica a consciência. Conscientemente passo a não gostar de Maria, inconscientemente continuo gostando. Para não sofrer com seu abandono perco a liberdade de gostar, que se recupera por uma decisão também inconsciente de experimentar meu amor por Maria.

Esta dimensão da liberdade foi uma descoberta da psicanálise que pode ser definida como um conjunto de estratégias para facilitar a experiência proibida. Os tipos de caráter são formas de perda de liberdade. Acredito que conhecer a forma da perda de liberdade seja um caminho para sua recuperação, e o motivo desta busca seja o que a psicanálise mostra com objetividade científica: o ser humano, privado de liberdade, adoece.

ver-se no espelho

Narciso after Caravaggio, de Vik Muniz

Este blog é a segunda etapa de um trabalho científico.

A primeira foi a publicação do meu livro Psicanálise e liberdade, onde eu coloco minha compreensão da psicanálise depois de quarenta anos de prática profissional. Ali me proponho a uma descrição completa do meu ponto de vista: uma metapsicologia, uma psicologia, patologia e tratamento, que são os elementos de uma abordagem psicanalítica.

Aqui vou iluminar aspectos detalhes e usos desta teoria. Serão publicados novos textos semanalmente.

Estou também à disposição para perguntas sobre Reich, de quem sou seguidor no espírito mas não na letra pois penso poder responder a perguntas deixadas em aberto por ele. Coloco então meu e-mail aqui para essa finalidade: algaiarsa@hotmail.com.

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